Justiça condena a 15 anos os quatro jovens do estupro coletivo de Copacabana
Juiz rejeitou a tese de consentimento e manteve os réus presos; dois deles respondem por outras denúncias de estupro, e o adolescente que atraiu a vítima cumpre internação
A Justiça do Rio condenou a 15 anos de prisão, em regime fechado, os quatro jovens acusados do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em um apartamento em Copacabana, em 31 de janeiro. Foram condenados Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, e João Gabriel Xavier Bertho e Mattheus Verissimo Zoel Martins, de 19.
A sentença é do juiz João Zacharias de Sá, da 1ª Vara Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ). Os quatro já estavam presos preventivamente desde março e vão continuar na cadeia enquanto recorrem. O juiz também fixou indenização por danos morais de 40 salários mínimos, cerca de R$ 64,8 mil, a ser paga pelos condenados à vítima. O processo corre em segredo de Justiça.
Segundo o relato da adolescente à Justiça, ela foi ao apartamento a convite de um colega do Colégio Pedro II, também de 17 anos, com quem já tinha se relacionado. No quarto, outros quatro rapazes entraram e, diante da recusa dela, a violentaram. Ela contou ter levado socos, tapas e puxões de cabelo e ter sido impedida de sair. O exame de corpo de delito do IML encontrou lesões nos órgãos genitais, nas costas e nas nádegas, além de suspeita de fratura em uma costela.
“A vítima deixou muito claro, a todo momento, que não se relacionaria com mais ninguém”, disse em março o delegado Ângelo Lages, da 12ª DP (Copacabana), que conduziu o inquérito. A adolescente saiu do prédio abalada, contou ao irmão e à mãe, e a família procurou a polícia no mesmo dia.
No processo, os quatro admitiram ter tido relações sexuais com a jovem, mas negaram o estupro e alegaram consentimento. As defesas chegaram a sustentar que ela teria inventado a denúncia por medo de que o encontro tivesse sido filmado. O juiz rejeitou as duas teses por falta de qualquer elemento que as sustentasse. Na sentença, ele destacou que a palavra da vítima tem peso especial em crimes sexuais quando é coerente com as demais provas, como no caso, e que não existe reação única diante de uma violência sexual: a vítima pode se desesperar, tentar evitar uma agressão maior ou ficar paralisada. Para o magistrado, a presença de cinco agressores aumentou a intimidação e reduziu qualquer chance de defesa.
O adolescente apontado como quem atraiu a vítima respondeu na Vara da Infância e da Juventude. Em abril, a juíza do caso entendeu que ele armou a emboscada e determinou a internação dele por seis meses em uma unidade do Degase. Por ser menor de idade, o nome dele não é divulgado.
Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, era aluno do Colégio Pedro II, que abriu processo administrativo para desligá-lo. Ele é filho de José Carlos Simonin, então subsecretário estadual de Governança da Secretaria de Desenvolvimento e Direitos Humanos, exonerado pelo governo do estado no dia seguinte à divulgação do caso. Vitor também é investigado em outro inquérito: a mãe de uma adolescente denunciou à polícia que ele estuprou a filha durante uma festa em um salão de festas, em 2025.
Mattheus Verissimo Zoel Martins, de 19 anos, é suspeito em um segundo caso com o mesmo roteiro. Uma jovem que tinha 14 anos em 2023 contou à polícia que foi atraída pelo mesmo adolescente do Pedro II a um apartamento, onde foi violentada. Segundo a investigação, o crime teria acontecido na casa de Mattheus, no Maracanã, e o grupo teria sugerido ter gravado as cenas para chantageá-la a não denunciar. “O modus operandi foi exatamente o mesmo”, afirmou o delegado. Ele se entregou à polícia em 3 de março.
Bruno Felipe dos Santos Allegretti, de 18 anos, cursava Ciências Ambientais na Unirio. A universidade o suspendeu por 120 dias, por decisão do reitor, e o proibiu de frequentar salas de aula, laboratórios e áreas de convivência. Ele e Vitor chegaram a ser considerados foragidos e se apresentaram à polícia em 4 de março.
João Gabriel Xavier Bertho, de 19 anos, era jogador do Serrano Futebol Clube, de Petrópolis, que o afastou e suspendeu o contrato após o caso. Foi o primeiro a ser reconhecido pela vítima e se entregou em 3 de março. Desde o início, sua defesa nega o crime.
Os outros dois casos, de 2023 e de 2025, seguem em investigação, e os suspeitos não foram julgados por eles. A polícia pede que possíveis novas vítimas procurem qualquer delegacia ou denunciem pelo Disque 100 ou pelo 180.
Em nota, o advogado Ângelo Máximo, que defende Vitor Hugo Simonin, criticou o vazamento da sentença antes de a defesa ser intimada e pediu apuração ao tribunal. Ele disse que não vai comentar o mérito por causa do segredo de Justiça. As defesas ainda podem recorrer ao TJRJ.