PF aponta Canella como “patrono político” de esquema de R$ 7,6 bilhões e diz que ele emplacou Amim no comando da Polícia Civil
Organograma enviado ao STF divide o grupo em núcleos político, econômico e territorial e cita possíveis acordos com o Comando Vermelho.
A Polícia Federal aponta o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), preso na manhã desta quinta-feira (15), como o “patrono político e articulador de alto escalão” da organização criminosa investigada na oitava fase da Operação Unha e Carne. A descrição aparece na representação enviada ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou as prisões. Segundo a PF, o grupo teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026 por meio de uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio.
De acordo com os investigadores, o ex-prefeito de Belford Roxo funcionaria como elo entre o braço econômico do esquema, agentes públicos e estruturas políticas. Ele seria beneficiário recorrente de valores obtidos de forma ilícita e usaria sua influência para emplacar pessoas alinhadas ao grupo em cargos estratégicos, o que daria proteção institucional às atividades da organização.
Um dos exemplos citados é o do delegado Marcus Amim, também preso nesta quinta. Segundo a PF, Canella teria articulado a indicação de Amim para a presidência do Detran-RJ e, depois, para a Secretaria de Polícia Civil. Para viabilizar a segunda nomeação, ele teria atuado numa mudança legislativa na Alerj que flexibilizou o tempo mínimo de carreira exigido para o cargo.
O organograma elaborado pela PF divide o grupo em três núcleos. No político-institucional estão Canella, como articulador, e Amim, descrito como facilitador da proteção às atividades econômicas ilícitas. O núcleo econômico-financeiro reúne, entre outros, o policial civil Pablo Jukia Felix Ferreira, o Pablo Russo, apontado como gestor de fato da rede de postos, além de pessoas usadas como responsáveis formais pelas empresas e de funcionários de uma distribuidora suspeitos de movimentar mais de R$ 308 milhões em espécie por meio de depósitos fracionados. Já o núcleo de controle territorial incluiria um miliciano condenado, responsável pelo apoio armado e pela coerção nas áreas de atuação do grupo.
A investigação também menciona possíveis acordos com o Comando Vermelho para a retirada de barricadas em troca do recuo de ações policiais, com eventuais benefícios eleitorais. Anotações apreendidas registram repasses identificados pela sigla “Canela”, ligados a dois postos de combustíveis, e, segundo a PF, o deputado eleito movimentou cerca de R$ 2,5 milhões em créditos entre maio de 2025 e abril de 2026, dos quais R$ 1,4 milhão sem origem esclarecida. Na operação, foram apreendidos relógios de alto valor, dois carros de luxo e duas motocicletas.
O caso começou em dezembro de 2025, para apurar o vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho, e depois foi ampliado para investigar uma rede de proteção ao crime organizado. Nesta quinta, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios do estado, e a Justiça mandou bloquear bens e suspender as atividades de 112 empresas, sendo 96 postos.
Os fatos ainda estão sob investigação, e nenhum dos citados foi condenado. A defesa de Marcus Amim informou que aguarda acesso ao cliente e à decisão para se manifestar. A defesa de outros dois presos disse não ter tido acesso aos autos. Até a publicação desta reportagem, a defesa de Márcio Canella não havia se pronunciado.